Impostos sobre Apostas em Portugal: IEJO, Quem Paga e Impacto nas Odds

Documento fiscal português com gráficos de receitas do IEJO sobre uma secretária

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Apostadores Não Pagam Impostos — Mas Ha Mais para Saber

Pelo menos uma vez por semana, alguém me pergunta: “Se ganhar 500 euros numa aposta, tenho de declarar ao fisco?” A resposta curta e não. Os ganhos dos apostadores em Portugal não são tributados. Mas parar aqui séria contar apenas metade da história — e a metade que falta explica muito sobre o funcionamento do mercado português.

Em Portugal, o imposto sobre o jogo online chama-se IEJO — Imposto Especial de Jogo Online. E pago pelos operadores, não pelos jogadores. Isto está consagrado no Decreto-Lei n. 66/2015, que regulamenta o jogo online no país. Para ti, enquanto apostador, o efeito prático é simples: não tens obrigações fiscais sobre prémios de apostas. Não precisas de declarar no IRS, não há retencao na fonte, não há limite a partir do qual começas a pagar.

Mas — e este “mas” é importante — o IEJO não é invisível. Os operadores pagam-no, e esse custo e transferido indiretamente para ti através das odds. Perceber como funciona este mecanismo é essencial para entender porque é que as odds em Portugal são, em média, ligeiramente piores do que em países com modelos fiscais diferentes.

IEJO: Taxas por Segmento e Cálculo

Quando comecei a estudar a regulação portuguesa em detalhe, a estrutura do IEJO foi a primeira coisa que me surpreendeu. Não é um imposto único — tem taxas diferentes para apostas desportivas e para jogos de casino, e a base de cálculo e completamente distinta.

Para apostas desportivas, a taxa é de 8% sobre o volume total de apostas — ou seja, sobre cada euro apostado, independentemente do resultado. Se os apostadores portugueses colocam 571,1 milhões de euros em apostas desportivas num trimestre (como aconteceu no Q4 de 2025), o operador deve ao Estado 8% desse montante. Isto aplica-se ao volume bruto, não ao lucro do operador.

Para jogos de casino online (slots, roleta, blackjack), a taxa é de 25% sobre o GGR (Gross Gaming Revenue) — a diferença entre o total apostado é os prémios pagos. Este modelo é mais favorável ao operador porque só tributa o lucro efetivo, não o volume.

A diferença entre os dois modelos é enorme. No desporto, o operador paga imposto mesmo quando o apostador ganha. Imagina um cenário em que o operador recebe 100 euros em apostas é paga 97 euros em prémios (margem de 3%). O operador fica com 3 euros de receita bruta, mas deve 8 euros de IEJO. Resultado: prejuízo de 5 euros nesse mercado. Este cenário não é teorico — acontece em mercados com margens finas e muitos vencedores.

É por isso que as odds de apostas desportivas em Portugal precisam de incluir uma margem suficiente para cobrir não só o lucro do operador, mas também os 8% de IEJO sobre cada euro que entra. Matematicamente, isto traduz-se em odds piores para o apostador comparativamente a jurisdições com tributação sobre GGR.

Quanto o Estado Arrecada com Apostas Online

Os números do IEJO impressionam — e são um indicador claro da dimensão do mercado português de jogo online.

No primeiro semestre de 2025, as receitas fiscais do jogo online totalizaram 163,9 milhões de euros — o que equivale a cerca de 906 mil euros por dia a entrarem nos cofres do Estado. Só no terceiro trimestre, o IEJO gerou 89,8 milhões de euros, um crescimento de 8,8% face ao mesmo período do ano anterior. No Q4 de 2025, os operadores pagaram 99,3 milhões de euros em impostos, um aumento de 11% comparado com o Q4 de 2024.

Ricardo Domingues, presidente da APAJO (a associacao que representa os operadores licenciados), tem insistido num ponto relevante: persiste uma tendência preocupante com cerca de 40% dos jogadores a apostar em operadores não licenciados, é o crescimento das receitas do Estado poderia ser mais significativo com um combate decidido ao jogo ilegal. Por outras palavras, o IEJO arrecada quase 100 milhões por trimestre, mas poderia arrecadar substancialmente mais se o mercado ilegal fosse eliminado.

Para colocar estes valores em contexto: o IEJO do jogo online gera mais receita fiscal do que muitos impostos específicos que a maioria dos portugueses conhece. E a tendência é de crescimento contínuo — o mercado regulado português atingiu uma receita anual de 1,175 mil milhões de euros em 2024, um crescimento de 42% face ao ano anterior.

Como o IEJO Afeta as Odds que Recebes

Aqui está o ponto que poucos artigos sobre apostas em Portugal explicam com clareza. O IEJO de 8% sobre o volume de apostas desportivas não é um custo abstrato — afeta diretamente o retorno que recebes em cada aposta.

Vou dar um exemplo concreto. Imagina que um operador num país sem imposto sobre volume pode oferecer uma odd de 2.00 para um evento com 50% de probabilidade (margem zero, cenário simplificado). Em Portugal, com o IEJO de 8%, o mesmo operador precisa de retirar 8% do volume apostado antes de distribuir prémios. Para manter a mesma margem de lucro, a odd baixa para aproximadamente 1.85. A diferença de 15 centimos por euro pode parecer pequena, mas ao longo de 1000 apostas de 20 euros, estamos a falar de 3000 euros a menos em retornos potenciais.

Este efeito é mais pronunciado em mercados com odds baixas. Numa odd de 1.20, a margem já é reduzida; adicionar 8% de IEJO comprime-a ainda mais. Em odds altas (5.00 ou mais), o impacto percentual é menor porque a margem total é maior. É por isso que apostar em favoritos extremos em Portugal oferece um retorno particularmente fraco comparado com outros mercados europeus.

Na prática, os operadores distribuem o custo do IEJO por todos os mercados, não o aplicam linearmente a cada odd individual. Mas o efeito agregado é real é mensurável. Quem compara odds entre operadores portugueses e operadores internacionais (em países com tributação sobre GGR, como Malta ou Gibraltar) nota a diferença consistentemente.

Comparação Fiscal com Outros Países Europeus

A primeira vez que comparei o modelo fiscal português com o de outros países europeus, percebi porque é que o debate sobre competitividade das odds não é apenas académico — tem consequências práticas para cada aposta que fazes.

O modelo português de tributação sobre o volume (turnover tax) é uma minoria na Europa. A maioria dos países com mercados regulados — Reino Unido, Malta, Italia, Espanha — tributa os operadores sobre o GGR (a diferença entre apostas recebidas e prémios pagos). Isto permite aos operadores nesses países oferecer odds mais competitivas porque só pagam imposto sobre o lucro efectivo, não sobre cada euro apostado.

O Reino Unido cobra 21% sobre GGR (após aumentos recentes). Malta cobra 5% de GGR até um teto anual. A Alemanha, que chegou a ter um modelo semelhante ao português com imposto de 5,3% sobre o volume, enfrentou resistência significativa do mercado é tem debatido alterações. O modelo português de 8% sobre volume é um dos mais onerosos da Europa para os operadores de apostas desportivas.

O que isto significa na prática: se um evento tem probabilidade real de 50%, um operador no Reino Unido pode oferecer uma odd de 1.95, enquanto um operador em Portugal oferece 1.85 para o mesmo evento. A longo prazo, está diferença afeta o retorno esperado de qualquer apostador no mercado regulado português.

Ha, contudo, um lado positivo neste modelo: ao tributar o volume e não o lucro, o Estado garante receita estável independentemente dos resultados dos eventos desportivos. Num trimestre em que os apostadores ganham muito, o GGR dos operadores cai mas o IEJO sobre volume mantem-se constante. Esta previsibilidade fiscal e valorizada pelo regulador e pelo ministério das Finanças, mesmo que penalize as odds oferecidas aos apostadores.

Tenho de declarar os meus ganhos de apostas no IRS?

Não. Em Portugal, os ganhos dos apostadores em jogos é apostas online não são tributados. O imposto (IEJO) é pago pelos operadores, não pelos jogadores. Não precisas de declarar prémios de apostas no teu IRS, independentemente do valor ganho.

O imposto IEJO torna as odds em Portugal piores do que noutros países?

Sim, em termos gerais. O IEJO de 8% sobre o volume de apostas desportivas e transferido indiretamente para as odds, que tendem a ser ligeiramente inferiores as oferecidas em países com tributação sobre GGR (como o Reino Unido ou Malta). A diferença é mais notável em odds baixas de favoritos é menos significativa em odds altas.

Criado pela redação de «Aposta na Desportiva».